
Pelé é maior do que todos. Não do que tudo. Um clube sempre será o coletivo. Ainda mais num esporte com 11. Depois 13. Hoje até possível ter jogo com 18 em um só jogo de um elenco campeão com sempre mais de 30.
O Santos Futebol Clube seria bicampeão paulista em 1956 quando Pelé pousou na Vila Belmiro. Tinha tido um ataque de cem gols em 16 jogos em 1927. Teria ainda mais gols e canecos a partir de Pelé. Mas não só por Ele. O raio caiu várias vezes no único clube de uma cidade que não é capital estadual que é campeã mundial.
Os deuses da bola são súditos dos santos e capetas do Santos de Pelé. E do Pelé do Santos.
A água da Baixada atrai caipiras como Zito e Coutinho. Brasileiros de outras terras para as areias mágicas. Gringos como Cejas e Rodriguez. ET como Ele.
Pelé fez o Santos ainda maior e melhor como faria com qualquer clube. Ainda mais um que não é qualquer.
OS MUNDIAIS DO SANTOS
O Real Madrid foi pentacampeão europeu, de 1956 a 1960. Como o primeiro título mundial (Intercontinental, para os europeus…) só foi disputado em 1960, o maravilhoso e irreal Madrid de Di Stéfano, Puskás, Kopa e belíssima companhia só conquistou uma taça planetária.
Uma a menos que o Santos de Pelé. Ou melhor: do time que nem precisou Dele para ser bi, contra o Milan, em três jogos, em 1963. Almir Pernambuquinho, o “Pelé branco”, ganhou a disputa com Amarildo, o Possesso milanista, bi mundial pelo Brasil em 1962, e ajudou um time espetacular a vencer outro e ganhar o planeta pela segunda vez. Sem Pelé – machucado.
O imenso mérito daquela seleção que se fez na Vila Belmiro foi independer de Pelé para ser maior que o mundo da bola. O Santos já era bi paulista (1955-56) quando Ele chegou ao time principal, ainda com 15 anos. Com Pelé, claro, passaria a patamares interplanetários. Campeão estadual em 1958, 1960 a 1962, 1964-65, 1967 a 1969. Pentacampeão do único torneio nacional da época, a Taça Brasil, de 1961 a 1965. Robertão de 1968. Tetra do Rio-São Paulo. Duas Libertadores. E os dois mundiais.
O primeiro, em 1962, ganhando do Benfica por 3 x 2, no Rio. Goleando e encantando na Luz, em Lisboa, justificando o nome do estádio do rival, impiedosamente goleado por 5 x 2. Quando, na feliz imagem de um jornalista português, o Santos passou os 45 minutos iniciais sem tocar os pés no gramado. Tanto que jogou. Tanto que pelezou.
O time que não pisou no gramado do estádio da Luz. Mas, insisto, não era só Pelé. Era todo o time. Mesmo com um treinador que, na preleção, costumava pedir ao time para fazer um gol logo de cara para tranqüilizar e, depois, fazer o que eles (muito) bem entendiam. Esse era Lula, treinador multicampeão na Vila, de 1954 a 1967. Mas capaz de “preleções” dessa profundidade. Ou de pedir para que os dois pontas voltassem para o meio e, juntamente com os dois médios, fizessem um “triângulo” com quatro jogadores…
Podem dizer que um timaço como aquele não precisava de treinador… Pode ser. Mas Lula ganhou tudo isso. Sem ser tudo aquilo. Palmas para ele. Mesmo quando fazia mexidas incompreensíveis. Até hoje, nenhum santista entende o porquê dele, no jogo decisivo contra o Benfica, em 1962, sacar o meia-direita Mengálvio (técnico, porém lento) para adiantar o polivalente lateral Lima para o meio, e deixar o veterano zagueiro Olavo improvisado na lateral-direita para marcar o ótimo ponta português Simão.
A idéia era marcar mais a partir do meio-campo, e deixar o time mais rápido. Foi uma temeridade. Simões jogou muito para cima de Olavo. Mas o Santos jogou ainda demais. Tem a ver com a mexida de Lula? Para o ponta-esquerda Pepe, maior artilheiro humano da história do clube (“Pelé nasceu em Saturno, responde ele), melhor treinador entre os craques bicampeões mundiais, Lula errou:
– Foi uma imprudência o que fez o nosso treinador. Mas deu tudo certo, apesar disso.
Lula quase repetiria seus experimentos contra o Milan, no segundo jogo decisivo do Mundial de 1963. O Santos precisava vencer depois de ter sido massacrando em Milão. Perdera para a ótima equipe italiana por 4 x 2. Em jogo que merecia ser muito mais. No Rio , só a vitória interessava. E Lula deixou escapar que colocaria o meia Batista no lugar de Pepe, para compor mais o meio-campo. Por sorte do Santos e da bola, o treinador foi convencido pela direção santista que Pepe não poderia ficar de fora. Depois de perder o meio-campo e o primeiro tempo por 2 x 0, o Santos virou para 4 x 2. Dois gols de Pepe, sob chuva pesada como a bola e as balas do Canhão da Vila.
Tudo dava muito certo porque era fácil jogar certo com tantas feras. Uma equipe que fazia seis ou sete, e tomava dois ou três. Não pela fragilidade defensiva, ou por insuficiência técnica. Mas pelo gosto em atacar. Calvet, o zagueiro técnico, se mandava demais. E sobrava para outro monstro (Mauro) segurar a barra. Na campanha da segunda Libertadores, o Santos fez 3 x 0 no Boca, no Maracanã, com 28 minutos. Levou um gol do ótimo meia Sanfilippo num contragolpe sofrido no fim do primeiro tempo. Quando o cabeça-de-área Zito resolveu se lançar ao ataque juntamente com o meia Lima, armando uma jogada com os dois pontas Dorval e Pepe enfiados, e mais a dupla Pelé-Coutinho na entrada da área. No contra-ataque, Sanfilippo foi lançado às costas do imenso Mauro, dos mais técnicos zagueiros da história brasileira, que fazia notável dupla com o quarto-zagueiro Calvet, de refinada técnica e capacidade de antecipação. A dupla exposta pelo time que atacava como se fosse o fim do mundo que, no fim, sempre acabava sendo santista. Mesmo com laterais que não eram brilhantes. Mas eram eficientes. Sobretudo Dalmo, que batia bem na bola e, destro, jogava com eficiência nos dois lados.
Soubesse segurar a bola um pouco mais, “administrar mais o jogo”, talvez o Santos tivesse ganhado alguns jogos a mais nos anos 60. Certamente teria tomado menos gols. Mas não seria cultuado pela eternidade como o timaço que foi. Justamente por não se contentar apenas em jogar bola e fazer gols.
Como se fosse o time de Pelé. E era. Até sem Ele
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